Steve Jobs – o legado de um herói  

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Eu nunca tive nada da Apple - na verdade, só usei o Safari por um tempo para poder ter um navegador só para o trabalho, e tentei sem sucesso trocar o Winamp pelo iTunes. Odiei ambos. Felizmente, isso não me impede de reconhecer que nessa quarta-feira, o mundo perdeu um dos maiores gênios que teve em gerações.

Steve Jobs (1955-2011) foi um homem só comparável em seu reino a figuras do porte de Thomas Edson, Henry Ford, Isaac Newton, Albert Einstein, William Shakespeare, Leonardo da Vinci, Charles Darwin e outros que mudaram o mundo, mesmo que você também não tenha nada da Apple - ou da Ford, ou pouco entenda de Teoria da Relatividade.

Nosso mundo é um grande contexto histórico. Não é possível e nem desejável furtar-se ao que a tradição e a história nos legaram. Neste sentido, somos todos positivistas, estruturalistas, psicanalistas, marxistas, keynesianos, neoliberais, feministas, modernistas, industriais, darwinistas - este é o mundo em que vivemos. Se formos criticá-lo, é a partir dessas teorias que vamos trabalhar. Cada uma dessas palavras tem um sentido mais ou menos aceito coletivamente. Essas teorias, para o bem ou para o mal, passaram a ser o que deveria ser debatido a partir do momento em que surgiram - é isto, aliás, o que explica por que o darwinismo, com todas as suas falhas, ainda é uma teoria adulta tout court, enquanto o criacionismo só merece o título de "teoria" por uma ultra-civilizada amabilidade semântica, nunca demonstrada pelos criacionistas na História.

Nosso mundo é o mundo de Steve Jobs. As últimas três décadas (um pouco a mais do que o tempo em que o mundo tem a honra de me conhecer) testemunharam eventos decisivos numa velocidade nunca antes vista: a derrocada do socialismo com a queda do muro de Berlim, o surgimento dos diversos blocos econômicos, Steve-Jobs-iPhone.jpgo absurdo crescimento populacional, a computação pessoal, a internet, o 11 de setembro, a crise de 2008, a Playboy da Maitê Proença. Estes eventos geralmente dependeram de uma coletividade - mas a genialidade da idéia da computação pessoal, Playboy da Maitê à parte, foi obra de um punhadinho de indivíduos tendo como um dos orquestradores Steve Jobs (ao menos creio que o crescimento populacional não foi obra só de uns poucos nerds bilionários, mas posso estar enganado).

A maior parte dos avanços tecnológicos da humanidade dependeu de uma única mente que melhorou a vida de milhões, bilhões de pessoas. Quando algumas dessas inovações aparecem juntas e confluem na mesma direção, temos uma verdadeira revolução, como foram as duas Revoluções Industrias, a linha de produção fordista, a automação, o BuddyPoke do orkut. Nenhuma novidade que trouxe melhoria na vida das pessoas foi obra estatal, com exceção dos experimentos militares. A despeito dos que rugem à qualquer gasto militar promovido, da penicilina à viagem à Lua, da bomba atômica ao leite condensado, foram os militares os únicos cientistas a promover melhor qualidade de vida via estatal no mundo. Até hoje o ITA é a maior faculdade tecnológica brasileira com explicação auto-evidente.

A internet também surge como experimento militar. A computação fluía naquela época em grandes universidades americanas, alimentadas por empresas de comunicação que eram pagas tendo os melhores nomes em seus quadros e ganhando concessões para atuar em escala continental. A ficção científica da época temia que, aliadas a robôs, umas poucas mentes malévolas iniciariam o apocalipse fazendo com que uma população já parecendo incivilizada tivesse de enfrentar máquinas poderosíssimas que era incapaz de dominar.

steve_jobs_mac.jpgUm dos principais nomes entre os raríssimos a nadar contra essa corrente foi Steve Jobs. Sem medo de computadores, quis levar a computação para a população. O primeiro computador pessoal que surgiu no mundo foi da Apple, empresa surgida na garagem de seus pais adotivos e hoje empresa mais lucrativa do mundo, vencendo o PIB de muitos países. Jobs acaba justamente com o medo dos computadores, essas máquinas que pareciam mais complexas do que o painel de um Boeing 747. A revolução que surgiria daí seria sem precedentes na História.

Não é preciso usar iPhone, iPod, iPad e ver os filmes da Pixar para agradecer a Steve Jobs como o herói que foi. Se os críticos das primeiras Revoluções Industriais notavam a perversidade do modelo por concentrar a propriedade dos meios de produção nas mãos de alguns poucos, talvez nem Jobs e nem ninguém poderia imaginar que criariam o primeiro produto para massas que era, afinal, um meio de produção.

Há hoje muitas profissões que fazem uso do computador. Desde webmasters, programadores, analistas de sistema e de mídia até jornalistas, publicitários, tradutores, ilustradores. Algumas profissões simplesmente não existiriam sem a computação pessoal (seriam escassos altos postos preenchidos a dedo em alguma grande corporação), enquanto um novo meio de produção para outras profissões foi lhes dado por menos do que o salário que ganham em um mês trabalhando para outrem. Não é preciso mais do que um computador e internet para se criar um blog, um site, ou para ter as ferramentas que um webdesigner precisa para seu trabalho. Não gostaria de saber o preço de uma imprensa para saber quanto me custaria atingir a quantidade de leitores que atinjo com essas linhas.

Steve Jobs, assim, encarna mais do que a perfeição o ideal dos criadores de riqueza, capazes de mudar o mundo, como mostra Ayn Rand em seu grande romance A Revolta de Atlas. Seus grandes personagens, como John Galt, Dagny Taggart, Hank Rearden e Francisco d'Anconia são arquétipos, ainda que caricatos, do produtor, encarnado pela figura do industrial no último século.

É preciso entender com cuidado o que significa "riqueza". A palavra faz com que se pense que, existindo ricos e pobres, o único problema se refere a distribuir o dinheiro existente.

Tal como um homem não é a soma de seus órgãos, homem-das-cavernas_computador.jpgou o amontoado das peças de um Honda Civic não é capaz de levar ninguém para o trabalho, a riqueza também não é o somatório do dinheiro do mundo. Não se pode pensar que tudo o que pode ser trocado por dinheiro já exista no mundo, sendo tomado por alguém. Ninguém cria matéria. Supor que toda a riqueza do mundo já exista, precisando apenas ser distribuída, é pensar que tudo o que o capital pode comprar é sempre o mesmo, desde os homens das cavernas até hoje. E com a pequena população que existia nas cavernas, seria conclusão inescapável que foram os homens mais ricos que o mundo já teve, embora ninguém queira viver com o que viveram.

Como bem conclui Milton Friedman, em Capitalismo e Liberdade, o preço dos produtos está nas idéias, e não na matéria-prima. O Vale do Silício reúne as empresas mais caras do planeta baseando-se no segundo elemento mais abundante do planeta. Uma idéia da mente de Bill Gates e Steve Jobs vale mais do que todas as matérias-primas de seus produtos - qual, aliás, é a matéria-prima de um DVD de instalação do Windows, que o torna tão diferente do DVD de um filme, para ter um preço tão dispare?

Steve-Jobs_apple.jpgSe o dinheiro é uma medida de produção, melhorar a vida das pessoas, lhes dando a oportunidade de terem mais produtos, significa criar produtos mais baratos, para que elas possam tê-los sem precisar trabalhar o que duas pessoas trabalhariam para juntar o dinheiro para aquele produto. Há duas formas de se fazer isso: com meios para se criar mais, ou mais rápido. A complicação é que ao mesmo tempo em que os meios para aumentar a produção significam encarecimento do processo, o fato de haver mais produtos para venda no fim do processo significa mais dinheiro em retorno. Portanto, o criador do novo processo corre um risco muito grande com sua idéia - por isso é tão arriscado criar uma empresa, e por isso costuma-se falar de especuladores como malévolos magnatas todo-poderosos, mas não se costuma ter coragem para investir em empresa alguma.

A Apple se arriscou muito supondo que as pessoas teriam computadores pessoais na década de 80, em que a idéia de um videocassete soava como uma interatividade nunca antes vista entre mídias.

Arrancar todo o dinheiro que Steve Jobs faturou no processo (junto a outros nomes como Bill Gates, Larry Ellison, Larry Page e Sergey Brin) e distribuí-lo igualitariamente não causaria Thomas_Sowell.jpga melhoraria na qualidade de vida da humanidade que as idéias da Apple, da Microsoft e do Google provocaram. Apenas cada pessoa teria uns US$100 a mais num mês, que poderiam utilizar para trocar seu videocassete de 4 cabeças por um de 7. É assim que a riqueza é criada, e os estatólatras só podem é lamber os beiços, felizes por "distribuírem" alguns US$ 20 que, antes da computação pessoal existir, poderiam pagar algo como 0,000001% do preço de um computador. Uma lição maravilhosamente apresentada por Thomas Sowell, em seu grande artigo The Real Public Service:

"No começo do séc. XX, apenas 15% das famílias americanas tinham um sanitário com descarga. Nem um quarto tinha água corrente. Apenas 3% tinham eletricidade, e 1% tinha aquecimento central. Apenas uma família americana em mil possuía um automóvel.

Em 1970, a maioria absoluta dessas famílias americanas que viviam na pobreza tinha sanitários com descarga, água corrente e eletricidade. No fim do séc. XX, mais americanos estavam conectados à internet do que estiveram conectados a um cano de água ou esgoto no começo do século.

Mais famílias têm ar-condicionado hoje do que tinham eletricidade antes. Hoje, mais de metade de todas as famílias com rendimentos abaixo da linha de pobreza possuem um carro ou caminhão e têm um microondas.

Isso não sucedeu graças a políticos, burocratas, ativistas ou outros que prestam 'serviços públicos' que você deve admirar. Nenhuma nação palmilhou seu caminho da pobreza à prosperidade através da retórica de burocratas."

(Thomas Sowell, negro de família pobre que até os 5 anos tinha tão pouco contato com brancos que mal sabia que amarelo poderia ser uma cor de cabelo, sabe a quem deve ter hoje eletricidade, água encanada e ser o maior economista vivo do mundo.)

É preciso trocar de iPhone todo ano para dever algo de nossas vidas a Steve Jobs? É um erro um pouco hegeliano bem comum criticar Steve Jobs graças ao corporativismo da Apple Store, do iPod exigir o iTunes, ou criticar o Bill Gates porque o Windows Vista pede autorização do usuário a cada vez que se clica em um programa. Jobs e Gates parecem os próprios diabinhos que nos punirão no inferno com mensagens de erro e falta de mp3 do Metallica.

Poucos percebem que, sem suas empresas e seus programas problemáticos, não é que teríamos empresas melhores - não teríamos empresa alguma. Teríamos o velho videocassete agora com 20 cabeças.

mac_apple_1984.jpgNão existe um progresso pré-determinado apontando que haveria computação pessoal exatamente a partir de 1984 (aproveitando-se até do título do livro de George Orwell), e por sorte quem deu o pontapé inicial foi Steve Jobs com o Macintosh no famoso comercial no intervalo do Super Bowl. Não haveria computação visual com ícones sem as mentes por trás do Windows - portanto, não adianta achar o novo Ubuntu lindo para supor que não se deve nada à Microsoft. Um computador hoje seria objeto de estudo em mega universidades - e poderia se parecer morbidamente com os computadores de ficção científica antigos, que ocupavam uma sala inteira, não tinham mouse (geralmente, sequer uma tela), mas falavam.

É a idéia de inspiração nietzscheana exposta por Ortega y Gasset em seu indispensável A Rebelião das Massas: os coletivistas críticos do liberalismo acreditam que um carro (ou um computador) são eventos prontos da natureza, que nascem em uma árvore em que alguém teve a sorte de colhê-lo pronto anteriormente - e por isso deveria deixar de ser mesquinho e agora "distribuí-lo".

Por fim, a maior diferença entre Steve Jobs e Bill Gates foi o modelo de gestão implantado em cada empresa. A Microsoft até hoje gasta mais lidando com reclamações de clientes do que desenvolvendo seus produtos. É muito raro encontrar um grande fã da Microsoft, embora applemaníacos abundem.

Steve Jobs afirmava que as pessoas não estavam preparadas para lidar com um alto padrão de excelência (ao menos não em seu próprio trabalho, embora costumem exigir esse padrão no trabalho alheio). Jobs era famoso por poder demitir alguém numa conversa de elevador, se não estivesse preparado a responder uma pergunta a um problema que a empresa enfrentava.

Para os estatólatras, o protótipo do chefe carrasco e explorador. Para as pessoas que conhecem as causas das conseqüências que vêem ao seu redor, fica a pergunta: ou se trabalha rigidamente para quem aplicou a mesma disciplina a si próprio, mudou o mundo em diversas áreas em que atuousteve jobs rip.jpg (computação pessoal, telefonia, estúdios de animação, até periódicos), ou se acabariam trabalhando como gerentes de supermercado. Steve Jobs foi um explorador, ou nós é que exploramos alegremente seu trabalho? O desejo de ganhar o mesmo dinheiro que Jobs faturou em vida é legítimo - mas o mesmo tanto quanto o desejo de passar uma noite com a Sharon Stone não nos dá o direito de forçá-la a isso sem merecimento, só pela nossa vontade.

Restam os outros reclamões de Jobs, aqueles que mimimizam sobre sua companhia ter tido mão-de-obra escrava chinesa ou o raio que for. Como quase tudo o que temos e tocamos tem alguma mão de obra escrava chinesa. Curiosamente, são os mesmos que adoram chamar liberais de "exploradores", mas são incapazes de perceber que é apenas no liberalismo que a escravidão consegue desaparecer - enquanto o regime em que a escravidão torna-se até vantajosa (como expliquei, com a praxeologia da Escola Austríaca, sobre o caso da Zara) é, justamente, aquele em que o Estado domina a economia de cima abaixo, obrigando qualquer um que queira se alimentar a trabalhar para ele, e deixar que ele decida o quanto de gastos de sua máquina administrativa vai sobrar para lhe jogar as migalhas.

steve jobs mac.pngE, logicamente, essas pessoas escrevem de computadores pessoais, e acreditam nas palavras de Lula, de que pegou um país "que só tinha miserável e fez mais que Steve Jobs e esses aí..." porque implementou programas de distribuição de renda que nem foram criação sua. Tudo o que Lula fez foi aumentar impostos para jogar novas migalhas para a população carente - que, por sinal, só poderá trabalhar com computadores graças a um da Vinci moderno como Steve Jobs.

Não é só a indústria que sentirá falta de Steve Jobs. Todos aqueles que agradecem pelo que têm todo dia, pensando de onde aquilo surgiu até como foi parar em suas mãos, lamentam sua perda.

Desmistificando o que sobrou do 11 de setembro  

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É estranho viver em um mundo em que você diga "Prefiro George W. Bush a Osama bin Laden" e uma moça cheia de fotos de biquíni no álbum "VERÃO!!!" te olhe torto por isso. Mas tal insensatez tem explicação.

Há 10 anos, as aulas foram interrompidas para que se pudesse comemorar a destruição das torres gêmeas. No dia seguinte, os professores de História e Geografia faziam debates, prognósticos que deram com os burros n'água e explicações sobre os atentados que revisavam aulas sobre a política externa americana. É mais ou menos como explicar as motivações de Charles Manson observando a vida de suas vítimas - ou explicar a queda de um avião analisando a dureza do chão.

wtc_119_boomerang.jpgEra uma atitude compreensível, naqueles pré-históricos anos de 2001 em que nem 3% das pessoas que usavam internet no Brasil conheciam o Google. Quem não viveu essa época não sabe a dureza que era fazer trabalho copiado da internet sem Google, usando o Cadê (perguntem aos seus avós). Nós sabíamos muito bem que nossos professores nunca tinham ouvido falar em al-Qaeda, em Osama bin Laden, que não sabiam qual era a capital do Afeganistão (se nós não sabemos hoje, 10 anos de doses cavalares de internet depois). Mas nós fingíamos que eles eram algo como curandeiros sabe-tudo, ou que o que eles imaginavam que sabiam valia a pena mesmo assim.

Só que aí nós crescemos, percebemos que em menos de 4 anos de faculdade já podemos dar a mesma aula que resume o mundo a um bandido e um mocinho. Uma aula em que todas as explicações estão prontas, antes dos fatos. Mas, algum dia, bate uma vontade de conhecer os tais fatos, essas minorias oprimidas.

Claro que não conheço bem os tais fatos. Mas aqui vai uma pincelada no 11 de setembro focado ousadamente no outro lado: em quem provocou o atentado.

Osama bin Laden: o islã explica

Osama bin Laden não é um maluco, é um extremista. Não é um desvio da norma, uma voz solitária: sua interpretação do islã, felizmente não majoritária, ainda é uma interpretação "possível". Se a jihad, a guerra santa muçulmana, pode ser interpretada como uma "guerra espiritual" individual, nada impede que também se interprete como uma luta de sangue derramado contra os não-muçulmanos.

Em 1998, 2 anos após uma declaração de guerra pública, bin Laden solta a fatwa "Frente islâmica Mundial Contra Judeus e Cruzados", subscrita por autoridades teológicas capazes de definir o que é "legítimo" nas leis muçulmanas.

Isto, claro, não foi invenção de bin Laden. a própria Arábia Saudita foi criada pelo chefe da tribo dominante em Dariyya, Muhammad ibn Saud (ahn-ahn? pegou?), unindo meninas-noivas.jpgao líder espiritual Muhammad ibn Abd al-Wahhab, conseguindo dominar inclusive Meca e Medina. Essa doutrina, o wahhabismo, uma versão mais "pura" e guerreira do islã, seria dominante em muitos países, sobretudo os mais pobres e incultos - como o Afeganistão e o Iêmen, onde meninas se casam aos 5 anos. O regime talibã afegão, que deu abrigo a al-Qaeda, conseguiu a façanha de brigar com os wahhabistas por serem muito tolerantes.

Não custa também lembrar que a sociedade muçulmana estava longe de ser fechada como hoje. As representações medievais e até vitorianas dos mouros e sultões era quase de depravação, com seus haréns e suas odaliscas - e o islã foi guardião da cultura grega, tendo uma ciência avançadíssima enquanto a Europa penava sob a força da Igreja, da Inquisição e do pensamento atrasado. Não foi senão em fins do séc. XIX que o islã, tentando atingir um grau de puritanismo europeu, começa a perseguir a sexualidade (vide o magistral livro de Peter Stearns, História da Sexualidade, ed. Contexto).

Os americanos não armaram a al-Qaeda

Apesar de ser adoravelmente fácil atribuir os atentados à política externa americana, bin Laden odeia tudo o que não seja o islã. Municiou milícias contra a União Soviética, e seus pronunciamentos só apontam os EUA como "inimigo" por serem "materialistas ateus" e sua política ajudar Israel, que ficou com uma mesquita que é o terceiro lugar mais sagrado para o Islã. Suas declarações tratam como inimigos quaisquer regimes "comerciais", volvendo seus olhos para Rússia, Índia, China (se o Brasil encabeçasse a lista, formaria uma sigla bem utilizada hoje em dia). Aliás, com nosso samba e futebol, bin Laden fatalmente trataria o Brasil como inimigo.

No entanto, ter um "inimigo comum" fez com que a estranhíssima agenda de bin Laden ganhasse simpatizantes mundo afora. Simpatizantes que o próprio Osama não iria querer vivos. Geralmente essas pessoas acham que o terrorismo é melhor do que a "desigualdade social" da política americana.

O que nos leva a um ponto importante: bin Laden, filho rico, ganhou grande destaque na sociedade islâmica enquanto a Casa Branca ainda não sabia o que era al-Qaeda, ainda no governo Clinton: afinal, largou sua casa abastada e foi defender sua fé (ainda que por meios questionáveis na sociedade islâmica) nas inóspitas montanhas afegãs. Numa sociedade profundamente ligada à propriedade (tal como a judaica), que trata até as mulheres como posse (sequer há palavra distinta para "marido" e "dono" em árabe), não seria o "neoliberalismo" americano ou o colonialismo europeu que irritaria bin Laden - basta ver as fotos de sua residência.

Não deixa de ser curioso, portanto, que os maiores críticos ocidentais dos EUA e que mais defendem as "razões sociais" do extremismo islâmico sejam ateus ligados à esquerda.

Sua primeira contribuição como guerreiro em fins dos anos abdullah_azzam.jpg70 foi reunindo recursos para os mujahedin afegãos lutando contra os soviéticos. Assim surge o primeiro mito, de que a al-Qaeda seria "criação da CIA". Mas se os EUA contribuíram para expulsar os soviéticos do Afeganistão, foi por um acordo com a Arábia Saudita, que financiava outro montante idêntico. O ideólogo saudita que assim planejou foi Abdullah Yusuf Azzam, com quem bin Laden estudou e, posteriormente, fundou a al-Qaeda (os dois romperiam apenas em 86, e Azzam seria morto em um atentado inexplicado em 89, possivelmente a mando do próprio bin Laden). Por sinal, o dinheiro americano não era distribuído diretamente aos sete grupos que compunham o movimento mujahedin, ficando a distribuição a cargo de autoridades sauditas e paquistanesas.

O próprio bin Laden, rico, financiou os mujahedin, além de captar recursos no Golfo Pérsico. Assim, se algum dinheiro americano acabou indo parar nas mãos de alguém que posteriormente fez parte da al-Qaeda, esse alguém teve de virar de lado para adentrar no grupo.

Osama e Azzam estabelecem o MAK - Bureau de Serviços Afegão - e estabelecem uma rede mundial de apoio a jihad, tendo 52 "escritórios" só nos EUA. O que a al-Qaeda trouxe de mais novo ao fundamentalismo islâmico foi ser uma rede global de extremistas, mesmo começando em 88, antes da internet. Terrorismo global em um mundo globalizado. Seu objetivo era restabelecer a grandeza do islã, visto como incompatível com a modernidade, a individualidade, o materialismo e a liberalidade modernas. Azzam, assim como um dos pensadores islâmicos mais influentes do século, Sayyd Qutb, via nos EUA o cúmulo da modernidade - e não de uma "injustiça social" promovida por sua política externa. Basta ver que Osama escolheu bem o Afeganistão como palco da al-Qaeda, após rachar com os wahhabistas da Arábia Saudita: tal qual o Iêmen, um país pobre e inculto, em que, depois de 10 anos e 225 mil mortes, 92% da população desconhece o 11/9.

A verdadeira "opressão colonial" promovida pelos EUA, para Osama bin Laden, foi Israel ter ficado com uma mesquita importante em Jerusalém.

A guerra ao terror deu certo

Um dos motivos da crença de Osama em poder derrotar o Ocidente ateu e imoral foi a retirada das tropas soviéticas do Afeganistão por Gorbachev: para guerreiros tribais, um sinal de fraqueza moral e covardia. Extremistas, de qualquer matiz de pensamento, preferem sempre lutar até as últimas forças.

A al-Qaeda não conseguiu realizar mais nenhum atentadocartacapital_binladenvenceu.jpg em solo americano. Como bem lembrou Guilherme Fiuza, sequer o "pânico" seria descrito assim por alguém que não freqüente uma faculdade de Humanas - as pessoas vão trabalhar e fazem marchas pelos seus direitos sexuais sem nem lembrar do terrorismo. Pior: nem as revoltas muçulmanas seguem o modelo de bin Laden - não importa o quanto a Carta Capital chore por isso. Afinal, nada demonstra a derrota de bin Laden mais claramente do que a primavera árabe. Os muçulmanos "sofrendo injustiças do Ocidente" e ainda sob governos ditatoriais aliados dos EUA (a grande questão da diplomacia americana daqui pra frente), justamente o "inimigo próximo" de que Osama tanto falava em seus pronunciamentos, usaram um método que a al-Qaeda odiaria, e, "traidores", se aliam justamente com o Ocidente.

Existe um método fácil de derrubar um ditador teocrático anti-ocidente: não torre fortunas com gastos militares (o maior erro de George W. Bush foram ann coulter invade their countries.jpegseus gastos militares com a privatização do Exército, como demonstrei no Implicante), muito menos em agências de inteligência como a CIA, que só geram teorias da conspiração doidivanas, mas que na realidade só fazem trapalhada em 90% de suas operações (vide História da CIA - Um Legado de Cinzas, de Tim Weiner). Compre um milhão de iPods e hambúrgueres de fast-food e dê de graça pra população local. Pague hackers para acabarem com as restrições à internet no Irã ou mesmo na China. Que Kadafi ou Ahmadinejad conseguiria sobreviver a uma população que conhece as delícias do mundo ocidental, como o Urubudsman™?

Bush soube bem disso. Promoveu diálogo com vários governos dispostos a dialogar (o que não inclui o regime talibã que não entregou a al-Qaeda por "hospitalidade" islâmica). Com os primeiros contatos com sociedades ocidentalizadas, o Cairo derrubou Mubarak, a Líbia derrubou Kadafi, a população iraniana reclama. Ou se conclui que a política externa americana deu seus primeiros sinais de sucesso no séc. XXI contra os "inimigos", ou se atribui tudo ao mero acaso.

O Iraque, portanto, foi uma exceção. Por mais complicado que seja defender a guerra, os mecanismos para sua concretização não foram mera vontade individual. Era uma nação com histórico de tráfico de armas de destruição em massa, invasão dos vizinhos (não foi senão o próprio grupo de bin Laden que financiou a defesa do Kuwait, temendo uma proliferação no Golfo Pérsico de socialismo baath sunita, o regime de Saddam, considerado traidor) e uma das mais brutais violações dos direitos humanos recentes. É comum se olhar para o Iraque como "a política externa americana", sendo que ela envolve 189 países, muitos deles ditaduras teocráticas muçulmanas. A política, na verdade, calcou-se no diálogo com quem queria dialogar, e foi exatamente o diálogo que irritou Osama.

Foi a aproximação com os EUA que fez bin Laden romper com a Arábia Saudita, perdendo a cidadania e indo se refugiar no Sudão, e depois no Afeganistão. O pacto de Oslo, que firmou a paz entre Israel e Egito e pôs Mubarak no poder, rendendo um Nobel da Paz para Anwar al Sadat, também foi demonstração de fraqueza. E como é que Saddam Hussein ficou sem suas armas de destruição em massa? Justamente pelo apoio americano a regimes islâmicos que estavam na rota do tráfico de armas - seu maior erro até hoje foi NÃO ter colocado o Irã na mira.

...

Enfim, sempre é fácil tentar enxergar a política americana como "imperialista", que tenta impor seus valores à força - e acabe-se defendendo justamente quem mais procura impor valores mesmo que precise matar a população civil para isso. Uma breve olhada para o lado de lá da cortina mostra que o mundo, apesar de tudo, é sempre mais complicado do que as explicações que temos para ele.

fonte: Vasco Rato, Compreender o 11 de Setembro - Dez anos depois, ed. Babel, 2001. Leitura rápida, baratinha e obrigatória.

A greve nunca é plena – Mata a alma e envenena  

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A Justiça do Trabalho do Mato Grosso mandou suspender a veiculação de uma propaganda de TV que relacionava greves a aumentos de tarifas públicas e impostos, afirma Rodrigo Vargas na Folha. A notícia é tão chocante que resolvi tirar o meu blog da greve que o acomete para poder comentá-la. Com 28 seguidores para nenhum post em 5 meses, já posso concluir que tenho mais audiência que a milionária TV Lula do Franklin Martins.

Entender o mercado é uma tarefa bastante custosa, mas a greve explica alguns de seus detalhes que passam despercebidos em uma teorização básica. O dinheiro não é o fim almejado pelo trabalho - ele é apenas o meio de troca pelo resultado do trabalho de outrém. O trabalho de um indivíduo, assim, não pode ser medido sozinho, sem conexão com o trabalho de outras pessoas da mesma sociedade. É a única razão cabível para o dinheiro ser auferível em números.

GREVE_CORREIOS_RJ_LULA.jpgSe esta verdade é auto-evidente, é constantemente ignorada na visão política e econômica (se é que se pode falar desta última) da maioria das pessoas. É ignorada tanto nas teorias inflacionárias adoradas pelo governo e os intelectuais seus cupinchas, que imprimem moeda sem correspondente aumento na produção, quanto na expansão desenfreada do crédito, ou a teoria sobre o trabalho que o avalia pela sua produção individual focada na mão-de-obra, sem analisar as trocas decorrentes.

Se as teorias econômicas mais populares se esquivam de lidar com as conseqüências mais inescapáveis deste fato ao manterem-se no virginal e imaculado reino das idéias platônico, sua aplicação prática acaba sempre precisando fazer alguma gambiarra para poder encarar o problema. Boa parte da discussão econômica mundial diz respeito a entender como conciliar a precificação e o trabalho de um com todas as variáveis inapreensíveis do trabalho de cada um dos outros em uma sociedade.

A greve é uma dessas gambiarras, e vem bem a calhar: é uma atitude que lida justamente com a verdade dos trabalhos estarem completamente interrelacionados. A greve serve para pressionar, seja o governo ou um patrão. A greve de um setor irá atrapalhar todas as relações econômicas de outros setores, que não poderão trocar o esforço do seu trabalho pelo esforço do trabalho de outras pessoas. Com a população revoltosa, não resta muita alternativa ao governo ou ao patrão em questão senão ouvir os seus funcionários.

Nesse sentido, a greve é algo intrinsecamente liberal. Ela "entende" o valor do trabalho como algo que não depende apenas do próprio esforço. E, para o liberalismo seguir suas complexas e delicadas regras, é uma obrigação que o empregado, seja do governo ou de uma empresa, possa fazer greve. Do contrário, como atingir uma justiça de salário e preço se alguém é obrigado a agüentar condições aviltantes sem poder trocar de emprego - isso para não falar de possíveis crimes cometidos pelo patronato, que podem soar apenas como "delitos" no papel (como não reajustar o salário conforme, ora, o avanço da tal inflação), mas que fazem toda a diferença na vida do trabalhador?

Mas que fique claro, a greve é justa quando os empregados já não têm mais a quem recorrer. É um ultimato, o non plus ultra, a maxima ratio da negociação trabalhista. O problema aqui é claro: todas as outras formas de negociação não levam em consideração o valor do trabalho depender não apenas daquele indivíduo, mas de todos os indivíduos. A Justiça trabalhista tem n mecanismos para coibir injustiças e abusos no trabalho, mas nenhum possui tanto poder greve_franca.jpgquanto a greve, que dispensa a burocracia, muitas vezes inócua, para lidar com uma lei que não é a da Constituição (que pode mudar com uma canetada), e sim uma inescapável lei de mercado: a greve atrapalha todo o sistema, o que gera uma pressão que nenhuma ameaça de processo pode igualar. Curiosamente, quem costuma organizar greves são os sindicalistas que mais ignoram o valor do trabalho como dinâmico e interdependente, e não individual.

A greve tem um preço, e se há um preço, alguém paga

A campanha que a Justiça do Trabalho do Mato Grosso proibiu de ser vinculada (decisão liminar, o que significa que não foi julgada e pode ser revogada numa esfera superior, ou pelo próprio juiz) apenas ensina um fato óbvio, verdadeiro e inapelável para a população: greve custa caro. E se custa, alguém vai ter de pagar. Adivinhe quem é esse alguém? Diz a Folha:

A peça de 30 segundos mostrava imagens de uma greve de motoristas e cobradores de ônibus ocorrida em maio de 2009 e afirmava que, dois meses depois, ocorreu aumento na tarifa.

Vejamos: houve uma greve de cobradores. Dois meses depois, ocorreu aumento na tarifa. Isso é uma "interpretação" ou um "fato", histórico, datado, que pode ser pesquisado nos jornais? Se ocorre uma guerra nuclear e todos morremos, os alienígenas que chegarem poderão verificar o que diz a campanha lendo os jornais que restarem e simplesmente chegarão à mesma inescapável conclusão. Mas "entidades sindicais", que tungam uma "contribuição" obrigatória (perdoe-se lá o oxímoro, é assim que eles dizem) do trabalhador, usam esse dinheiro para proibir que sejam ditos dois fatos - a greve e o aumento subseqüente da tarifa:

Em nota, o órgão disse ver na campanha "um ato antissindical e abuso de direito por parte dos anunciantes". "A campanha ataca diretamente o direito constitucional de greve assegurado aos trabalhadores brasileiros."

A ação civil pública pede também que as entidades financiadoras sejam condenadas a pagar R$ 10 milhões em danos morais coletivos.

Ora, se narrar estes fatos em uma peça de meros 30 segundos exige tal amonta por danos morais coletivos, é porque os fatos em si é que são de uma moralidade absurdamente baixa. A peça não diz isso explicitamente: apenas apresenta os fatos e a conclusão mais óbvia do planeta fica por conta do espectador. Impedir isso é censura, bem típica das "greves de estudantes" (?!) que invadem reitorias, como mostra Gazeta do Povo:

greve_reitoria_ufpr.jpg

A greve, que paralisa a produção por tempo indeterminado, poderia ser "adequada" como última força. Afinal, ela obriga toda a população a prestar atenção na injustiça (verdadeira ou suposta) que acomete aqueles trabalhadores. E, se há injustiça e a greve é a solução mais cabível, não deve haver medo de qualquer fato relativo à divulgação dos dados relativos à greve. Aliás, é o que tentam fazer todas as centrais sindicais quando voltam ao batente: estufam o peito e mostram os resultados conquistados.

Não sendo as greves no país feitas sempre por injustiças, e quase nunca como a última medida cabível (percebem sua eficiência, embora preguem teorias de trabalho desvinculado, sem nunca entender a contradição), é fácil perceber como até os próprios trabalhadores precisam ser contidos à força para continuarem na greve - daí surge a figura do pelego, o negociador, e dos fura-greves. O que resta então é coibir que a transparência das informações chegue à população. Como nossos governos oscilaram entre populistas e verdadeiras ditaduras, não é de se surpreender que tenham dado tanto poder aos sindicalistas, que movimentam as massas quase como timoreiros.

Assim, se uma greve é feita por um motivo que não era suficiente para sua realização, simplesmente se parou de produzir por determinado tempo, e se recebe por aquele tempo. É uma "falha" no valor do trabalho ligado ao trabalho de outros que alguém precisa pagar - o jeito é que todos paguem um pouco. Resultado: aumento da passagem de ônibus após uma greve de cobradores. Por que afirmar o fato é "atentar contra o direito constitucional de greve assegurado aos trabalhadores brasileiros" e faz alguém ser tungado em R$10 milhões?

Uma coisa deveria ser tão clara que não deveria ser notícia, mas juntar causa e conseqüência por essas bandas já é uma revolução: assim como a greve custa, e alguém precisa pagá-la, se alguém quer esconder uma notícia, é porque ele não quer que descubram uma verdade que essa notícia escancara.

Emir Sader: PT Saudações  

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Aproveitando que Emir Sader não ficou desempregado hoje (está com uns projetos aí, todos a erário público), relembremos alguns dos melhores momentos sobre o mestre.

Sobre o Argumentum ad verecundiam

(...) De fato, uma vez que a opinião tinha um bom número de vozes que a aceitavam, os que vieram depois supuseram que só podia ter tantos seguidores pelo peso concludente de seus argumentos. Os demais, para não passar por espíritos inquietos que se rebelam contra opiniões universalmente admitidas e por sabichões que quisessem ser mais espertos que o mundo inteiro, foram obrigados a admitir o que todo mundo já aceitava*.

Neste ponto, a concordância torna-se uma obrigação. E, de agora em diante, os poucos que forem capazes de julgar por si mesmos se calarão, e só poderão falar aqueles que, totalmente incapazes de ter uma opinião e juízos próprios, sejam o eco das opiniões alheias.

Pois estes, na verdade, odeiam aquele que pensa de modo diferente, não tanto por terem opinião diversa daquele que afirma, quanto pela sua audácia de querer julgar a si mesmo, coisa que eles nunca poderão fazer, sendo por dentro conscientes disso.

(Arthur Schopenhauer, Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão, p. 170, Rio de Janeiro: TopBooks, 2003.)

* Comentário de Olavo de Carvalho:

Expediente característico de nossos polemistas de esquerda, que fogem de todo argumento mediante a simples alegação: "É de direita", ainda que o ponto em discussão não seja de natureza política.

Exemplo escandaloso: saindo da conferência do jornalista Carlos Aberto Montaner, que argumentava pelas vantagens da economia liberal sobre a socialista, o prof. Emir Sader objetou que o Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano (do qual o conferecista é um dos autores) é um livro inquisitorial, que "pede veladamente a censura" das obras esquerdistas.

O prof. Sader não só escorregou para fora da questão, mas falseou a verdade ao catalogar Montaner na odiada categoria dos inquisidores, pois o Manual se limita a fazer, a respeito de certas obras esquerdistas, uma crítica irônica e inteligente, que aliás seria despropositada se essas obras fossem proibidas de circular. - Este experiente é mais eficaz ainda quando associado à manipulação semântica (estratagema 12), isto é, quando primeiro se carrega uma determinada palavra de conotações pejorativas, deixando-a pronta para ser usada no presente estratagema.

(comprem e leiam o livro, que deveria cair em todo Vestibular.)

#AbaixoDecreto! #ForaSarney! E viva a revolução de sofá!  

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Eu quero quebrar tudo e fazer a revolução! Mas eu o farei do meu sofá. O marechal Deodoro da Fonseca foi acordado no meio da madrugada para proclamar a República. Teve de se livrar das ceroulas do pijama, vestir a farda e ir lá, salvar a pátria. Isso foi no século XIX. Hoje, se não me falha o relógio do Windows, é século XXI. Os pauzinhos se inverteram. Eu quero fazer a revolução no meio da madrugada sem nem desembainhar a espada. Aliás, com a tecnologia wireless, quero fazer revolução sem nem me levantar da cama. Fazer meu dever cívico é obrigação; pentear o cabelo é pura frescura de séculos atrasados. Piquete is so last week. Na real, tão anos 20.

Hoje, com o Trending Topic no Twitter #AbaixoDecreto, mais uma vez rolou a grita dos verdadeiros cidadãos brasileiros: ora, deveriam fazer a revolta nas ruas. Fechar a Paulista. Fazer panelaço. Invadir a reitoria. Impedir que se ande por qualquer avenida. Levantar piquete. Pintar a cara. Batucar na frente de hospitais. Tirar as crianças da escola. Fazer como fizeram no Egito.

Esse é o jeito certo de fazer a coisa certa, não é? Trending Topic seria pra bunda-mole. E talvez seja. Mas foi para isso que inventaram a civilização: da geladeira ao revólver, todas as invenções que prosperam servem para que não só os pitboys de academia tenham algum valor de mercado e consigam roubar nosso lanche. Civilização é dar poder aos bunda-moles. Todos os homens nascem diferentes, mas Samuel Colt os tornou todos iguais.

Fazer baderna pode parecer o jeito certo, porque é o único jeito que foi conhecido de derrubar um governo, olhando para o passado. O passado não é um bom jeito de verificar o que foi certo. Na verdade, a História é a história de um bando de cretinos. Sempre que uma massa marchou para derrubar um regime, estava sendo orquestrada por uma oligarquia que queria o poder para si - e o tomou de todo, mandando a mesma massa ir pastar pouquíssimo tempo depois. O sonho de todo esquerdista, afinal, é liderar uma turba enfurecida.

sofa.jpgE por que diabos devemos ir pras ruas? Em que cargas de realidade paralela esse é um jeito melhor de se fazer política?! O sentido que se quer com isso é claro: só se é um bom cidadão, antenado e inteligente, se sua opinião precisa ser apresentada a toda a população enquanto ela vai trabalhar, estudar ou fazer alguma outra coisa daquele rol de atividades que são denominadas vida. É uma imposição da atividade política até onde ela não é mais cabível. É o sentido em fechar ruas, em gritar, em impedir a passagem de transeuntes que, afinal, têm algo mais importante do que fazer do que não fazer nada no meio da rua, mas com o objetivo de "protestar".

É legal protestar. Eu gosto de reclamar de políticos, eu quero derrubar todo mundo. Alguns, eu queria derrubar mesmo a pauladas. Mas isso eu faço na tranqüilidade da porta dos fundos do Congresso, armado de um tacape coberto de pregos. A alavanca é a maior conquista da engenharia. Um tacape é uma alavanca: sejamos progressistas com a tecnologia. Ninguém precisa fazer barricadas por isso.

mst_bradesco.jpgO pressuposto é sempre aquele de que, se um político mija fora do pinico, deve-se criar uma situação tão insustentável para a população que ela não agüente e vá arrancá-lo do seu cargo pelo pescoço. Dialética histórico-materialista. Isso funcionou com o muro de Berlim, literalmente destruído na unha. Mas é uma falta de conhecimento histórico acreditar piamente que a abertura democrática, as Diretas Já ou o Impeachment de Collor se deram pelos universitários e sindicalistas matando aula e fazendo assembléias gerais. Isso é coisa de movimentos sociais. Movimentos sociais são apenas isso, afinal: pessoas que, se não conseguem o que querem, fecham estradas e avenidas, porque são mais importantes do que transporte de alimento e ambulâncias.

Ademais, quantos escândalos rolaram no governo Lula? Houve passeata da CUT, do MST, da UNE e demais bandeirolas do PC do B impedindo acesso aos 34 hospitais da região da Avenida Paulista (8,4 mil dos 33,6 mil leitos, ou 25% dos leitos da cidade)? Em compensação, quantos "Fora FHC e o FMI!" aconteceram? Na revista Mais Valia n.º 4 há uma entrevista com duas estudantes universitárias (isso lá é coisa pra se entrevistar?!) que acharam UM A-B-S-U-R-D-O terem ido a uma manifestação e só fecharem duas faixas da Paulista. "Eles não podem aceitar isso - têm de fechar a avenida toda!" É isso que é progresso? Foi para isso que inventaram o progresso?

Os estudantes que ficaram doentes, lendo livros de filosofia política ou escrevendo de maneira mais higiênica em jornais e revistas são menos politizados do que os democratas da garganta e megafone? A Gaviões da Fiel, gritando em uníssono no metrô "Quem não for corinthiano vai pra PQP!" é a forma correta, a melhor forma de participação democrática?

forafhc.jpg A imaginação que depois formata um modelo de sociedade não acompanha o progresso científico a não ser em teocracias e totalitarismos onde o Estado impede o próprio progresso. O que essas pessoas querem é justamente querer politizar tudo, para que tudo seja questão estatal. Como se a democracia e nosso modelo de sociedade já estivesse adequado, com umas 2 ou 3 trocas de canetadas entre deputados da linha oldschool do jaguncismo na época das eleições (querendo saber quanto o Estado conseguiria controlar a internet) resolvesse todos os problemas e atualizasse nossos sistema para o século XXI, onde os eleiores não lêem mais notícias nos jornais dos candidatos, e sim os jornais dos candidatos divulgam o que seus eleitores fazem no Twitter.

Se se dizem progressistas e politizados, tratem de fazer o sistema se atualizar a ponto de uma forma populista de governo de terceiro mundo, como definir o salário mínimo por decreto presidencial, não seja mais aceita. Sobretudo, de depor contra a presidente sem precisar atrapalhar a população. Política não precisa ser assunto para quem não quer se meter com política, como Física Quântica não precisa ser assunto para quem não entende de Física, mesmo com um acelerador de partículas que pode tragar nossa galáxia num piscar de olhos.

forasarney.jpgEu quero melhorar o meu país, e por isso não vou fazer panelaço na rua. Existem coisas melhores do que um Trending Topic no Twitter? Existem, mas piquete não é uma delas. Não adianta organizarem um #forasarney no vão do MASP, e reclamarem que só foram 30 pessoas (que, misteriosamente, tinham algo para fazer, além de nada). O modelo está errado. Se a Dilma quer governar por decreto, eu quero um contra-decreto. Se na época de Collor talvez tenha sido preciso uma passeata para indicar a insatisfação popular (mesmo que fosse claro para qualquer um que tivesse uma conta poupança), hoje já não é mais. Se o governo da Dilma se desestabilizar, acho mais civilizado que notem a impossibilidade de mantê-la no cargo via Trending Topic do que fechando avenidas. Eu sou uma barricada de pijama.

Progresso é isso. Civilização é isso. Alguém imagina um dinamarquês insatisfeito com o ato de um político safado fechando avenidas por isso? Lá nem trânsito existe, que dirá alguém querendo mais trânsito pelo bem de todos.

Se só os eleitores da tag #AbaixoDecreto votassem, podem ter certeza de que o país seria melhor, sem precisar de nenhum megafone. #ForaDilma! ZZZzzzzz!

Cadê o PT oldschool, o PT de raiz, o PT 89?!  

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"Eu quero um Lula modelo 89, sem arranhões." - André Dahmer

No aniversário de 31 anos do PT, cabe sempre perguntar por que ainda existem petistas nesse mundo, além do fato de o PSDB não ter investido em Educação.

Há razões por demais óbvias para o partido ter mudado tanto. Mas não há como discutir suas vantagens e desvantagens: desde 2002, o argumento central do petismo resume-se a "Nós ganhamos", e toda dialética de cotejamento de idéias se encerra sob esta verdade científica.

O PT no Brasil pode ser confundido com a própria esquerda (a extrema-esquerda, que a cada 2 reuniões racha e cria um novo partideco, não conta). Como toda a esquerda, defendia ardentemente uma idéia antes de galgar ao poder, e passou a defender as idéias opostas assim que teve o poder em mãos.

Mas onde está aquele PT oldschool, o PT de raiz, aquele PT que passou a década de 90 inteira dizendo que o PSDB era "neoliberal", sem nunca definir o que diabos é isso (muito menos a diferença entre um liberal e um neoliberal) por ter "mania de privatização"? Por que subiu ao poder e, ao invés de reestatizar tudo, se gaba de ter mais dinheiro em caixa do que seu "herdeiro maldito", podendo até repassar certo michê para seus cupinchas (afinal, todo escândalo de corrupção passou pelas estatais: Petrobras, Correios, Caixa, Banerj, Embraer).

alca2.gifA intelligentsia brasileira universitária saudava apenas cinco anos antes da queda do Muro de Berlim o tratado de Paul Kennedy, Ascensão e Queda das Grandes Potências, que profetizava como os EUA iriam ruir, pela dialética marxista que determina que o capitalismo não "se agüenta" depois de um tempo, graças a seu orçamento militar, e o mundo, capitaneado pelo terceiro mundo (não os BRICs) se curvaria ante à nova potência: a União Soviética.

Foi-se o partido político que, apoiado maciçamente por sociólogos, historiadores e demais "intelectuais" que continuam a grassar pelas Universidades, pregava contra Collor o "socialismo", mas um tal de "socialismo democrático" - estrovenga inventada ad hoc da boca para fora quando a queda do Muro mostrou o quanto uma população sob um regime socialista quer se livrar do explorador capitalismo do outro lado, que misteriosamente era chamado de "imperialista".

alca1.jpgPor falar em imperialismo, não só o período pré-Cortina de Ferro foi jogado na lata de lixo da História, como repetia tanto Trotsky: a década de 90 inteira também, misteriosamente, desapareceu. Na década de 90, a cada aula de Geografia e História ouvíamos ad nauseam que o maior perigo para o Brasil era uma tal de Alca, que iria tomar nossos empregos, diminuir o salário de quem ainda conseguisse se manter nos seus postos e escravizar toda a população aos desmandos do Império do Norte.

Marchas e mais marchas fecharam a Avenida Paulista, pois era urgente dificultar o acesso aos 34 hospitais da região (8,4 mil dos 33,6 mil leitos, ou 25% dos leitos da cidade) com urros de "Fora FHC e o FMI!" para conscientizar a muque a população de que apenas o PT no poder poderia evitar que o Brasil sucumbisse com força total ao capitalismo yankee.

Em seu nono ano no governo, uma "simples" ameaça de elevar o IOF de 0,38% para mais de 4% fez com que um novo petista (só se vira petista depois de velho a soldo)heloisa_helena.jpg divulgasse uma nota desmentindo a notícia com a contra-prova que sempre calou a boca do mundo: uma frase do ministro da Fazenda negando que um governo de esquerda estivesse pensando em aumentar impostos. Ora, os caudatários do estatismo contrário ao capital não deveriam lamentar que o Imposto não vai mesmo aumentar, pois quanto menos a vilâ "classe média" consumir nos EUA, mais faremos pela derrocada do Império? Afinal, para um esquerdista, a melhor ação que um governo pode promover não é aumentar impostos?

A coisa é suspeita: quando pega mal para seu próprio eleitorado (dos sindicalizados do ABC á classe média que "adotou" Lula, ao não vê-lo mais como um Lech Wałęsa sem sintaxe), a prova de que o PT é bom é que ele não tem mais o imperialismo americano como inimigo, e que vai deixar o brasileiro consumir no exterior à vontade - exatamente o mesmo aumento de consumo que proibia à classe média, antes de descobrir qual o melhor caminho para faturar votos.

Lech Wałęsa, diga-se, foi a síntese da esquerda até a década de 90, e deve ser um nome emblemático a ser lembrado para se compreender a atual política externa petista. Pego com a mão na botija em escândalos que mostram que sindicalistas no poder, aqueles que "lutam pelos trabalhadores", não são lá exatamente a melhor opção para estes mesmos trabalhadores LechWalesaTIME1980.jpg(sempre a confirmar o dito de Hayek sobre leis trabalhistas), foi espinafrado do posto de queridinho da esquerda mundial (id est, da esquerda que, até então, ainda não subira ao poder). Frei Betto, em mais de uma carta a Lula, onde o trata por amigo, lembra da decepção da esquerda mundial com a corrupção de Wałęsa - embora os mortos da mais próspera ditadura da América Latina sejam vítimas de um amigo que o mesmo Frei Betto defende até hoje - o Fidel Castro, que pode ter madado dólares para a campanha do PT em 2002 (como indicou o desastroso depoimento na CPI dos Bingos do economista vladimir Proleto, ex-assessor de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto envolvido nas denúncias), enquanto sua população vive com a menor desigualdade social da América Latina, com salários varianto de 12 a 20 dólares por mês (o mesmo que se obtém, no mínimo por mês, em 2 horas de trabalho na Califórnia).

E se o consumo indica adesão ao regime vigente, ao invés de um rigoroso combate a ele, por que cada acordo comercial firmado por Lula é saudado como mostra de que o mundo finalmente olha para o Brasil com bons olhos e a imprensa internacional o saúda (ao mesmo tempo em que chama o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para escrever nesta imprensa), quando a tal Alca assustava tanto os petistas?

Por fim, hoje não se comemora apenas o aniversário de 31 anos do PT: em 2003, num golpe fatal do Destino, a única força cósmica do Universo com senso de humor, o PT comemorou seus 24 anos de idade justamente quando veio à público a mais contundente denúncia sobre corrupção no PT, sarney_dilma_pac.jpgenvolvendo o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz - um dos nomes petistas que, a despeito da consabida ignorância da população, hoje mal conseguiria se eleger como vereador nos velhos currais eleitorais de onde saem os caciques de sempre... e, de Maluf e Roberto Jefferson a Jader Barbalho e Renan Calheiros, contando com seus antigos inimigos Collor e Sir Ney, todos eles hoje são aliados do PT. Todos defendem um Estado participativo, e todos pleiteiam quem cuida das verbas de qual estatal.

Em 31 anos de PT, uma frase resume seu período pré e pós-poder: o PT fez coisas boas e novas. O problema é que as coisas boas não são novas, e as coisas novas não são boas.

Aproveitando a ressurreição youtubesca do dia, pode-se muito bem afirmar que o PT acredita tanto no poder de distribuir renda das estatais quanto Costinha acreditava nos prêmios estatais que vendia - e, pelo michê de ambos (juntos), até eu acredito.

IOF: O bote cubano da dona Dilma  

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"O governo é como um bebê: um canal alimentar com um enorme apetite, numa ponta, e nenhum senso de responsabilidade na outra." - Ronald Reagan

O governo Dilma anunciou "estudar" aumentar a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) das compras no exterior com cartão de crédito de 0,38% para mais de 4%, confome se lê na Folha.

Segundo a própria reportagem (imparcial, e ao menos sua versão online, públicagratuitaedequalidade), "O objetivo é frear o consumo no exterior". A melhor forma encontrada de se fazer isso, para nossos analistas, é fazer com que o preço de tudo no exterior seja multiplicado praticamente por 10.

imposto-de-renda.jpgA conta é clara, conforme mostra a reportagem: "Se a alíquota for aprovada, o IOF sobre uma despesa internacional de R$ 2.000 em cartão passará dos atuais R$ 7,60 para R$ 80." Diz também: "A medida visa evitar o endividamento excessivo, que pode elevar a inadimplência no futuro."

O que isso significa é que, supostamente, para evitar que o brasileiro, pouco acostumado com a dinherama que só viu na vida a partir da era Lula, fique cheio de dívidas, o governo vai tungá-lo ele mesmo, pois quer cuidar bem dos seus cidadãos. Em outras palavras, a turminha do PT acha melhor IMPEDIR que uma compra seja feita no exterior para que o contribuinte não "se endivide" do que vê-lo com dívidas e uma nova TV em casa.

Tudo isso, então, é feito para o nosso bem, pois o governo é bonzinho. O governo não quer nos ver com dívidas. Já estou até esperando um pronunciamento de Cristovam Buarque, aquele, da PEC da Felicidade, explicando que a felicidade não significa apenas dinheiro - deve também ser parcela governamental. AFinal, quando se pensa em algo bom para nós, imediatamente se pensa em um deputado e seus suplentes ou um ministro.

Paradoxalmente, afirma também o governo que "Empresários também se queixam de que importados prejudicam produtos locais". Ora, ou se está protegendo o consumidor do consumo (esse mal a ser extirpado a canetadas), ou não. É paradoxal justificar uma medida anti-consumo sugerindo outro tipo de consumo - sobretudo se a desculpa é "endividamento".

dilma-rousseff.jpgEndividamento significa apenas que o consumidor, afinal, pagará pelo que consumir. Quando o governo tenta definir o que a população deve consumir ou não, invariavelmente favorece um pequeno grupo que sairá favorecido. E aí, cai-se por terra todas as benesses que, concorde-se com o liberalismo ou não, são suas vantagens - e o preço dos produtos estar atrelado à sua qualidade é apenas a primeira delas. Já não se tem mais a garantia de que se crie um produto com baixo custo e/ou com menores custos de distribuição (ao contrário do que a esquerda pensa, os "exploradores" querem que até os pobres consumam, para poder lucrar mais): basta apenas fazer parte do "empresariado" que defende o partido no poder e usar a desculpa paradoxal que for.

Manipulação significa controle. É tão simples quanto parece.

O governo petista, agora capitaneado (?) por Dilma, neste como em outros casos, aposta todas as suas fichas na ignorância da população, entendida "população" aqui não como populacho, mas aquela fatia da sociedade que abrange do populacho à elite - ou seja, ela inteira. Como sói, aposta certo.

Como já apontava Frédéric Bastiat (1801-1850), em seu ensaio O que se vê o que não se vê (disponível no obrigatório OrdemLivre), já apontava o problema de só analisar a economia pelo que se vê, sem se analisar o que não se vê.

Quando comenta os impostos, começa com a citação que, de tão cretina, não tem como não ser encarada com ironia: "O imposto é o melhor investimento que existe; é um orvalho que fecunda! Vejam quantas famílias vivem graças a ele! E observem os seus efeitos sobre a indústria: é infinita a sua ação, é a própria vida!"

Lembrando sempre: esquerda = impostos.

O que o governo quer dizer com isso é que, fora os impostos para bens públicos (como a construção de um metrô), os maus necessários, esse tipo de imposto direcionador de consumo indica que ele entende mais sobre consumo do que nós.

leao-imposto-de-renda.jpgConsidere-se a anarquia do mercado comendo solta. Para botar uma ordem no incontrolável, o governo obrigaria (imposto tem uma etimologia clara) que uma parte do que é gasto fosse gasto com ele. Para piorar, em um sistema de capitalismo dessenvolvimentista como o nosso, o capitalismozinho mais mequetrefe já inventado, onde se consegue enriquecer mais em uma repartição pública do que descobrindo a pólvora, é favorecida uma classe de empresários que se livram da livre-concorrência, a marca mais indelével do capitalismo, ficando-se apenas com o preço que se paga pelas suas vantagens... mas sem as vantagens.

Quando se tem um escândalo de corrupção, sabe-se que o triste não é só uma parcela do nosso dinheiro ter financiado o enriquecimento ilícito de alguém: é ainda dinheiro que poderia ter movido a economia, deixando que a população (pobres inclusos) consumissem e tivessem produtos em casa (o que melhora indiscutivelmente a qualidade de vida), apenas porque o governo julga saber melhor como fazer o governo ter essa qualidade de vida.

cristovam_buarque.jpgPor sinal, segundo o senador Cristovam Buarque, o que o governo tem de fazer é propiciar "a garantia de renda, moradia, empregos". Porque, afinal, se mantivermos a anarquia do mercado, apenas os ricos terão dinheiro. Ignore-se que todo aumento de renda na baixa população, por estímulo ou não, só funcione porque o governo parou de tentar influenciá-la em outras áreas: afinal, o que seria o Bolsa Família, se não houvessem indústrias com produtos baratos e de distribuição de baixo custo nas áreas onde ele é aplicado? De que serve o Bolsa Família, mesmo eleitoralmente, sem diminuição da inflação, que exige que o governo não torre a burra inteira?

Mas o próprio senador dá com a língua nos dentes quando, após ter sua proposta de PEC da Felicidade ridicularizada por Glenn Beck, o histriônico apresentador da Fox News, afirmou: "Para se ter felicidade, não basta apenas ter os direitos. Na visão capitalista estúpida da Fox, basta ter US$ 40 mil dólares por mês para ser feliz". Ou seja: Cristovam sabe que está tirando dinheiro da população. Mas é melhor dar seu dinheiro para o governo do que ter um novo produto em casa: o governo sabe te fazer feliz, corrupção e ineficiência à parte.

impostos.jpgPara Cristovam Buarque, Dilma Rousseff e nossa esquerda, um consumidor pagar por sua moradia em uma empresa especializada no assunto, que cuida de baratear custos justamente para cometer o pecado de lucrar mais do que outra, podendo vender mais, é um absurdo. O correto é dar o dinheiro para o governo, para ele saber quais empresas "nacionais" darem certo, por comissões de orçamento erigidas por deputados e seus assessores, colocando mais encargos nos produtos X (e, apenas por mera coincidência, fazendo com que esses encargos vão para os seus cofres) do que nos produtos Y e... bem, deu para acompanhar onde foi parar o dinheiro?

Não é sem razão que a comparação da qualidade de vida de um país com o seu grau de liberdade econômica, mesmo em países que eram paupérrimos até poucas décadas (como Cingapura ou Irlanda), nunca é comentada em nosso ensino médio. E nem por nossos doutores deputados, com uma mentalidade que também saiu pouco do ensino médio.

Enquanto se fica com o "capitalismo" com a maior carga tributária do mundo, e aumentando cada vez mais, com uma economia livre, ma non troppo, o Estado vai apertando a porca e tomando conta de cada setor da vida da sociedade.

Mas não o faz como uma ditadura, no modelo cubano, prendendo e arrebentando na prática, e não só na retórica eqüidia de um Figueiredo. O faz onde, como apontava Bastiat, não se vê pela sociedade.

O aumento do IOF é exatamente esse controle social invisível. Enquanto em Cuba se domina a vida a ponto de sua população usar geladeiras como botes para fugir da ilha, a dona Dilma do PT simplesmente aumenta o preço das passsagens.

Alguém explique para a esquerda e para o PT que imposto e liberdade não se bicam nada bem.